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| Sogras e noras apanhadas no quintal da mãe- |
O nome é esquisito, mas foi a neste serviço que me dirigi pela primeira vez na semana passada.
Fica mesmo em frente ao bloco de sangue, onde tantas vezes entrei para fazer doações.
8.00H da manhã, na sala 6 cadeiras/marquesas (não sei o nome correcto), ao lado os suportes para os sacos de sangue, soro e anti-coagulantes, e mais umas quantas maquinetas medidoras de não sei o quê..
Um plasma na parede sintonizado no canal 1, uma secretaria e um móvel cheio de tubos, agulhas, medidores de tensão, termómetros e mais uma panóplia de equipamentos médicos perfaziam tudo o que a sala tinha, três enfermeiras e duas auxiliares andavam atarefadas.
A enfermeira que me recebeu foi, atenciosa e delicada.
- Bom dia minha querida, sabe o que vem fazer? Sente-se bem?
- Sim, sei pelo menos o que a Drª. me informou, e sim estou bem, respondi.
- Ai minha querida com estes valores não se pode sentir bem, até pestanejar deve ser cansativo-
- Ah sim cansada estou mas sinto-me bem para iniciar o tratamento.
Foi-me colocado o soro. Primeiro temos de limpar a veia explicou a enfermeira, só depois podemos administrar-lhe o ferro, depois para terminar o restante soro.
Imaginava que fosse um liquido branco, mas tem a mesma cor do ferro bebível, assim um cor de caramelo escuro.
Outros doentes foram chegando, um Sr. que foi preciso ajudar a subir para a marquesa, outro que não andava, arrastava os pés devido à doença e à idade, um outro ainda que soube depois tinha sido operado ao coração, fazia hemodiálise e estava ali para uma transfusão de sangue deitou-se com dificuldade, aos poucos todas as marquesas estavam ocupadas.
Eu era a mais nova e a de melhor saúde.
Também a única a que aquela era a 1º. vez, todos os outros doentes já conheciam (e se conheciam) o procedimento, alguns já sabiam o nome das enfermeiras.
Foram contando histórias acontecidas em dias anteriores, anedotas e até falaram dos netos. Senti-me uma intrusa, afinal ali estava eu de unhas pintadas bâton cor de rosa e pulseiras de pérolas "falsas" rodeada por outras pessoas que quase não se moviam e que dependiam daqueles tratamentos para viver.
-Oh Francisco lembras-te quando íamos à tasca jogar as cartas e beber um copinho? Agora nem beber nem fumar posso, se alguma vez eu pensei que na velhice estava assim, faço 79 anos este ano mas nem sei se lá vou chegar...
- Que é isso está ai ainda para as curvas.
- Tou tou, mas é para as quedas que dou quando me falta a força nas pernas
No dia a dia nem me apercebo do sofrimento dos outros, só nos hospitais, tomamos consciência do que se passa ao nosso redor.
As enfermeiras sempre umas queridas com uma palavra de carinho para com aqueles doentes, enfraquecidos e "velhos" atentas ao decorrer dos tratamentos e aos bip.bip das máquinas.
Um dos doentes ao qual tinha sido muito difícil à enfermeira encontrar uma veia que suportasse a colocação da borboleta chamou uma das auxiliares.
-Oh filha desculpa mas preciso de urinar.
- Agora não pode sair dai amiguinho, responde ela com carinho. Mas você tem a fralda faça na fralda que no fim a gente muda-lhe a fralda e fica limpinho antes da sua filha o vir buscar.
- Mas eu não gosto nada de dar trabalho!..
- Têm de ser amiguinho, hoje por si amanhã por mim!
Sempre muito carinhosas e atenciosas para com os doentes, as auxiliares entravam e saiam da sala, ora iam buscar mais sacos de sangue para as transfusões, ora ajudavam a trazer novos doentes, as marquesas pouco tempo ficavam vazias, logo iam tendo novos ocupantes.
No inicio do tratamento tive uma quebra de tensão, umas tonturas mas que rapidamente pararam, disseram que era normal, era o corpo a combater o que estava a ser administrado.
Hora e meia depois saia da sala, no braço ficou uma leve impressão de aperto, pela veia acima um formigueiro bem leve.
Quando dava sangue nunca senti isto a única coisa que eu não gostava era mesmo do tamanho da agulha que tem de ser utilizada, mas tirando uma vez em que tive uma quebra de tensão não me custava nada, e saia do hospital contente pois podia estar a ajudar uma vida a ser salva.
Por volta das 12.00H comecei-me a sentir como se tivesse bebido álcool, comecei a ter dificuldade em falar e a coordenação de movimentos não me acompanhava o pensamento tive até dificuldade em conseguir levar o garfo para a boca na hora de almoçar, às 13.30 já estava bem
Esta semana levarei o 2º. reforço, e durante as próximas três quartas-feiras seguintes também, depois as analises e o Hemograma e nessa altura já deverei ter os valores normais. Assim o espero.
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